![]() |
ERA UMA VEZ UM RAPAZ About a Boy ________________________________________ Realizadores: Chris Weitz e Paul Weitz Actores: Hugh Grant, Toni Collette, Rachel Weisz e Nicholas Hoult Ano: 2002 Idade: M/12 Duração: 101 minutos Género: Comédia/Drama |
PROCESSO WILL: A NORMALIZAÇÃO EM NOME DO BEM ESTAR GERAL
É sabido, apesar da personagem de Hugh Grant no filme não ser obrigada a fazer amor com uma tarte (a não ser que esse fosse o nome de uma mulher, mãe solteira de preferência) «About a Boy» foi realizado por Paul e Chris Weitz, os mesmos de «American Pie». O filme narra a história, nos tempos modernos, de um menino desadaptado do seu próprio universo social por influência de uma mãe, uma hippie depressiva e com tendências suicidas, que teima em lhe incutir de forma autista um rumo e valores que são os seus esquecendo os devidos a uma criança daquela idade (não víramos, embora por imposição, já algo parecido e com resultados bem dramáticos em «Clube dos Poetas Mortos»?). E, em paralelo, a história de um menino grande, um conquistador inveterado, que vive sem necessidade de trabalhar em virtude dos royalties que lhe são pagos por uma canção de Natal famosa que fora escrita pelo seu pai em 1958. Ou de como Marcus (Nicholas Hoult), o menino, vai influenciar e melhorar a personalidade de Will (Hugh Grant), o homem que se comporta de forma leviana. É, diga-se, a adaptação para cinema de um livro que vendeu mais de 1 milhão de exemplares e esteve em 1º lugar nas listas de “best-sellers” do Reino Unido e da Austrália, por exemplo.
Refira-se de imediato que «Era Uma Vez um Rapaz» é um filme assaz curioso. Curioso sobretudo porque enquanto objecto fílmico inserido no género de comédia com pretensão a ensaio sobre alguns tipos de personalidade que a nossa sociedade vai produzindo mas que, por este ou por aquele motivo, vai ela própria rejeitando, é a antítese de si mesmo. Porque Will é descrito como um solteirão de 38 anos, rico e charmoso, mas ao mesmo tempo imaturo e superficial. Um egoísta e um inútil, teoriza-se mesmo. Mas enquanto o filme vai apelando estrategicamente à mudança de personalidade de Will, abandonando este o egocentrismo que o caracterizava em favor de um maior humanismo e altruísmo – não se resistindo mesmo à mensagem final sobre os valores da amizade e do amor depois da insinuação de figuras paternais corporizadas ou omnipresentes –, percebemos que o filme só funciona como comédia enquanto Will “pratica o bem” unicamente como forma de retirar dividendos para o seu muito socialmente incorrecto estilo de vida. Era aquele Will que debitava pensamentos algo obscenos sobre as mulheres e que, entre outras artimanhas, inventava filhos e se inscrevia em grupos de pais solteiros como mero estratagema de sedução, que nos divertia, que representava um Will que suscitava um olhar interessado sobre a sua personalidade. O outro Will, o Will do melodrama subjacente, é um Will algo banal, recheado de lugares comuns, de referências mais ou menos óbvias a anteriores obras cinematográficas ou mesmo à realidade que todos nós, com desvios de conteúdo e uns de forma mais militante que outros, tendemos a trilhar. Melodrama sem surpresas, portanto, e realizado de um modo que acaba por prejudicar a fita, em termos gerais, e a sua agradável faceta de comédia, em particular.
«About a Boy» é igualmente um filme com um argumento bem pouco original, assim como pouco originais se revelam alguns pormenores da realização destacando-se neste contexto a cena do espectáculo escolar com Will e Marcus a actuarem perante uma plateia que ávida de “sangue” acaba por ser seduzida (lembram-se de Al Pacino em «Perfume de Mulher»?, ou de Sean Connery em «Descobrir Forrester»? Eles fizeram nesses filmes quase o mesmo, mas fizeram-no primeiro). E também a personagem principal – embora vestida com roupa assinada e de cabelo cuidadosamente despenteado – assenta na versatilidade q.b. do actor Hugh Grant que não é no entanto suficiente para fazer esquecer o Hugh Grant de quase sempre. Ainda assim, devidamente enquadrado o filme, esse factor não é necessariamente negativo até porque, aqui, em «About a Boy», Grant foi “instigado” a usar de um estilo que nos faz lembrar Woody Allen nas personagens interpretadas por si. Isto é, de tanto se menosprezar a si próprio acaba por conseguir o efeito pretendido, ou seja, que simpatizemos consigo. Ou com seja lá quem for o diabo que protagoniza.
Compilando, «Era Uma Vez um Rapaz» é um filme de falsa marginalidade narrativa que apenas a usa para ter alguma graça e a rejeita logo de seguida. A par desse cinismo, apoia-se nas premissas mais clássicas do melodrama não conseguindo evitar que estas sejam apresentadas em forma de clichés. Mas o que não deixa igualmente de ser verdade e deve ser reconhecido é que, enquanto comédia e prestação dos actores, o filme é agradável e razoavelmente conseguido. Mas se nem se leva a mal a Hugh Grant o facto da sua personagem enveredar pelo mais previsível e bem desculpável dos clichés ao apaixonar-se pela personagem de Rachel Weisz, uma actriz que tem no filme uma aparição algo fugaz mas encantadora, não deve, por outro lado, deixar de se afirmar que a estrutura conceptual demasiado convencional e óbvia do filme acaba por deitar a perder qualquer tipo de impacto emocional ou racional que com ele se pretendesse obter.
Joaquim Lucas
Classificação:![]()
![]()
![]()
![]()
![]()
Outras críticas por Joaquim Lucas