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ERA UMA VEZ UM RAPAZ About a Boy ________________________________________ Realizadores: Chris Weitz e Paul Weitz Actores: Hugh Grant, Toni Collette, Rachel Weisz e Nicholas Hoult Ano: 2002 Idade: M/12 Duração: 101 minutos Género: Comédia/Drama |
TUDO SOBRE O MEU PAI
Uma pequena pérola! “About a Boy” (em português “Era Uma Vez Um Rapaz”) é uma lufada de ar fresco no tempestuoso Verão cinematográfico que nem um título digno de referência soprara... até agora.
Assim, em pleno Agosto, chega um objecto notável, um exercício de regressão às tradições mais nobres do melodrama clássico americano retrabalhado pela nova cultura pop e pelo espírito cínico que, cada vez mais, se pressente na sociedade actual – “Ghost World” e “Os Tenenbaums” são os exemplos mais evidentes dessa denúncia. Hugh Grant é o solteirão mais vulgar que se podia arranjar a quem o filme baptiza, muito simplesmente, de Will. Will é um preguiçoso mulherengo que julga viver numa ilha onde não necessita de mais ninguém, acreditando que precisa das mulheres para manter uma relação de rotina e de satisfação sexual sem, no entanto, permitir que a intimidade evolua por forma a violar a privacidade do seu ilhéu de conforto e solidão. Ao mesmo tempo, ouvimos a história de um rapaz chamado Marcus (magnífico Nicholas Hoult) que é o alvo preferencial de trituração pelos seus colegas assanhados e púberes na escola e vive sozinho com a sua mãe divorciada – a espantosa Tony Collette. Mais do que uma suspeita, torna-se já uma evidência que Tony Collette é uma das melhores actrizes da actualidade, senhora do mais complexo registo em “O Casamento de Muriel”, de PJ Hogan, assim como da mais cortante composição secundária em “O Sexto Sentido”, de M. Night Shyamalan. O filme começa com o mais delicioso politicamente incorrecto com Grant à cabeça e, lentamente, abre-nos o coração com o seu humanismo genuíno e desprovido das habituais pregações em filmes do género. “About a Boy” não é mais do que a história comovente de um menino à procura do seu espaço e de um adulto a sufocar dentro do seu próprio e autoconstruído terreno de sedentarismo. Marcus é um menino fora do vulgar, penteia o cabelo de uma forma “nerd”, veste-se com roupas excessivamente “fancy” e patina pelos corredores da escola a cantarolar inconscientemente “Killing me Softly”. Ele é, claro, o alvo de chacota geral por parte dos colegas. A sua mãe Fiona (Collette) vive em estado de depressão e o seu equilíbrio instável preocupa seriamente o seu filho Marcus que teoriza um pouco de psicologia conjugal. “Eu não chego, é necessário mais alguém de apoio” pensa Marcus. O filme tem, sem dúvida, uma perspectiva secretamente infantil já que tudo gira em volta de um rapaz que procura um pai para si e um marido para a mãe – é, afinal, a história da descoberta da nossa própria identidade (connosco e com os outros). Assim, inicia uma odisseia para convencer Will a namorar com a sua mãe, tarefa que não será, de todo, fácil uma vez que Will, além de não sentir atracção por Fiona, é o pior exemplo paterno que Marcus poderia pedir. Will é o melhor exemplo de um irmão mais velho, um amigo mais pontual, é aquele que compra os ténis e que oferece cds de música mas não consegue lidar com assuntos mais sérios e íntimos receando a integridade e partilha da sua própria privacidade. Will tem medo de abrir a porta para alguém de fora entrar no seu mundo, escondendo-se assim dentro de um muro de despreocupação e boa-vida (para isto muito ajudou a cabotinice de Hugh Grant). Dinamizado por uma banda sonora notável de Badly Drawn Boy, “About a Boy” é um melodrama familiar que os sinais dos tempos modernos fossilizaram e convenientemente (re)denominaram de comédia romântica. Mas o filme dos manos Weitz é um pequeno prodígio ao evitar todos os lugares-comuns que, ao longo dos anos, menorizaram o valor de praticamente todas as comédias românticas - excepção feita, nos últimos anos, ao brilhante “Melhor É Impossível” e ao espantoso “Quase Famosos”. Geralmente, o momento mais perigoso e híbrido dos melodramas e comédias românticas é, precisamente, o final, altura em que o filme reconverte-se e desliga-se de qualquer ambição de subtileza recorrendo à pregação fácil de uma mensagem moralista e politicamente correctíssima. Mas, entenda-se uma coisa, nunca seria capaz de me opôr a um filme que transmitisse algo de bom ou eticamente saudável. As reservas são sempre colocadas caso essa mensagem seja pregada à custa da subtileza narrativa e da verosimilhança humana das personagens, traídas por um argumento pastelão reconvertendo todos os lugares e relações a um sabor de inexorável falsidade. Mas até nisto “About a Boy” é um prodígio de subtileza formal, escapando-se a todas essas facilidades e simplismos. É, também, a história da descoberta de uma relação. A de pai/filho? Talvez, mas não necessariamente. Uma última, mas perturbante nota: os realizadores deste filme são, também, os responsáveis por “American Pie”. Não sei se será boa publicidade colar esta referência, mas certamente irá gerar uma confusão de públicos no mínimo curiosa. Seja como for, “About a Boy” é, sem dúvida, a primeira grande estreia deste segundo semestre cinéfilo e uma surpreendente e originalíssima abordagem das vicissitudes familiares e da necessidade urgente de pertencermos a uma família (tradicional ou não).
Tiago Pimentel
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